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Eu, robô
Uma carta de amor. Brega! Sim, termo brega! Quem, hoje em dia, manda uma carta de amor? Isso não existe mais. Talvez por dois motivos: as pessoas não mandam mais cartas e o amor anda muito escasso. Juntar ambos é uma missão difícil! Logo, onde estão essas cartas? Onde está a espera por um sinal demorado do amado, como em Please Mr. Postman, dos Carpenters? O papel perdeu o valor. E ele é tão significativo! Aquelas palavras transcritas direto do coração. (estou muito brega hoje) Lindo! As fotos no papel. Que delícia que era aquele ritual de sentar com a família e/ou amigos e ver fotos e mais fotos. Momentos ali, materializados. Fotos enviadas com cartas... Aquele bilhetinho cheio de juras deixado estrategicamente na mochila do namoradinho da escola. Aquela folha de caderno toda preenchida repetidamente com “eu te amo” e cheia de corações. Aquela primeira página do livro com uma dedicatória. Aquele perfume espirrado no papel. Aqueles adesivinhos coloridos colocados no decorrer dos dizeres de uma carta. Hoje, o mundo é digital. Os sentimentos parecem estar digitalizados também. Até falar ao telefone parece uma coisa antiquada. O normal mesmo é trocar e-mails, sms’s, recados e depoimentos em redes de relacionamentos. E eis que os relacionamentos se tornaram públicos. Eis que os sentimentos não importam apenas para as duas pessoas em questão, mas para toda a rede. Sim, para amar de verdade é preciso falar para todo mundo. E no orkut/twitter/facebook, por favor! Um exemplo claro: estado civil. Ah, sim. O tal do estado civil. Hoje, é um dilema! Nunca se sabe que momento está vivendo. Mas – como tudo na vida, há um mas –, as redes de relacionamentos têm a resposta sempre. Vá no perfil da pessoa e cheque se está solteira ou não. Simples! Porque um namoro só é considerado namoro depois que o status for mudado na rede. É como se não valesse de nada o pedido, o jantar e o beijo após o sim. Porque, na verdade, o que conta é a divulgação. Divulgação de tudo. Da sua vida, dos seus afazeres, de quem são seus amigos, do que você comeu ontem, com quem você está. E não digo tudo isso querendo mostrar que não me submeto a esse mundo. Pelo contrário. Sou mais uma usuária, mais uma que utiliza dessas milhões de ferramentas digitais para viver e, por que não, divulgar a minha vida. Mas, tenho uma saudade absurda dos papéis, os famosos papéis. Afinal, é claro... tudo muda, mas certas coisas nunca perdem o valor para mim.
Escrito por Mayara Alves às 23h47
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Depressão 3D
Cá estou eu, iniciando 2010 com uma nova frustração. Nova, porque frustrações nós temos de montes. Consegui, apenas, acrescentar mais uma à minha listinha. E essa está nos meus olhos. Ela se chama diplopia. Para quem não sabe o que é isso, dê um Google aí. É simples e complexo ao mesmo tempo, e absolutamente raro. Sou uma dessas raridades. Ela pode ser temporária. Mas eu, claro, tenho-a permanentemente. Dentre todas as suas características, as quais já me acostumei depois de 20 anos vividos, uma delas me deu uma rasteira nesses dias. Eu não enxergo 3D. Isso mesmo. Vou repetir. Eu não enxergo 3D. Eu não enxergo 3D. Eu não enxergo 3D. Já haviam me cogitado essa hipótese, mas eu ainda não havia feito o teste. Afinal, não me lembro do Cine3D do Parque da Mônica. Mas, infelizmente, a hipótese foi confirmada no cinema. A frustração não é apenas com “Poxa, que pena, não vou mergulhar nesses filmes novos”. O problema é pior. O mundo está virando 3D. Tudo! E quando hologramas forem coisas normais? Eu não vou enxergar. E quando a televisão virar 3D? Eu não vou enxergar. E quando o computador virar 3D? Eu não vou enxergar. Os pensamentos serão em 3D, as comidas serão em 3D, os ônibus, os cabelos, as roupas, as lojas, os shoppings, os carros, as pessoas, as conversas, os relógios, as paixões, a água, o tempo! TUDO será em 3D. As pessoas vão amar em 3D! E eu? Nem depressão 3D conseguirei ter. Vou ter a antiga e ultrapassada depressão comum.
Escrito por Mayara Alves às 14h34
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Injeção nostálgica de Love-is-in-the-air
Um marcou pelo seu jeito bobo de ser. O outro, pela maneira com que me fazia sorrir. Um marcou pelas noites cobertas. O outro marcou por sua atenção. Um marcou pela forma como sorria. O outro, por como me fazia importante. Um marcou por como aquele abraço parecia me proteger do mundo. O outro marcou pela alegria. Um marcou por nunca esquecer de cada detalhe. O outro marcou por prender minha atenção. Um marcou... O outro... O outro... O outro... Temos sempre muitas lembranças de todos os amores que passaram em nossas vidas. Sei que dizer ‘amores’ é uma maneira forte demais para se referir aos casos, rolos e encontros já vividos, mas, mesmo assim, são pessoas que deixaram, de alguma maneira, algo em nós – em mim. E que nós, claro, também deixamos um pouco de nós. Hoje, domingo, caminhei no shopping. Época de natal. Tudo cheio. Pensei que fosse encontrar famílias, filhos, pais e mães. Fui sozinha. Para o meu espanto – ou para, pelo menos, fingir que foi um espanto –, encontrei casais. Muitos casais. Casais enamorados da minha idade. Alguns com um pouco mais, outros com menos. Mas casais. Talvez, até não tivessem tantos casais assim, mas parecia que eu só conseguia vê-los. É como quando compramos um carro novo. Parece que vemos vários iguais em todo momento. Mesma sensação. Porém, diferente do exemplo citado, o caso não é de ver refletido em volta a presente realidade. Como eu disse, eu estava sozinha. Sozinha em todos os sentidos, incluindo o conjugal. Maldita ideia de ir ao shopping sem ninguém. Eu sei que não dá certo. E lá se vão sms’s com aquela amiga que – coitada – me agüenta ‘pra carambola’! Andando, andando e pensando. Vão batendo as lembranças, as saudades. As saudades de cada gesto, de cada cotidiano, de cada conversa, de cada mãos-dadas. Sei que não era a única ali a pensar assim. Sei também, principalmente, que todo mundo – todo mundo mesmo – tem saudades de tempos remotos, de pessoas, de momentos, de vidas, de histórias. Eu não estava errada. Só estava ali.
Escrito por Mayara Alves às 23h41
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O último adeus
Ontem, terminei de ler um livro. Não gosto de terminar livros. Bate-me uma tristeza estranha. Fico triste mesmo. Para mim, é como a morte. Fica uma sensação vazia. Morte do livro. Aquele livro morreu. E eu? Eu fui a responsável por fechar o seu caixão, por unir aquelas folhas novamente, envoltas por sua capa. Eu estava presente em seu último adeus. Junto àquele bolo de folhas, se foram personagens, histórias, vidas – fictícias ou não. Foi dado fim a um universo. Acabou. Não importa qual foi o final do livro, ele acabou. Não importa como ele começou, ele morreu. O livro está morto. Adeus.
Escrito por Mayara Alves às 14h23
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Limites de relações
Até onde vão os limites da liberdade de relacionamentos entre homens, mulheres e suas amizades? Sim, a questão está na parte das amizades. Todo o resto, sobre ficar, enrolar, degustar, pegar, etc, já é de conhecimento de todos. Mas até onde as amizades podem interferir no passado ou no presente de qualquer relação homem-mulher sem compromisso? Ok, está confuso, não? Vamos devagar. A Mariazinha tem suas amiguinhas. O Joãozinho tem seus amiguinhos. Outrora, Mariazinha ficou com o Joãozinho. Agora, uma das amiguinhas da Mariazinha quer ficar com o Joãozinho. Pode? Ou será que a partir do momento que ele ficou com uma da turminha, ele não pode mais ficar com nenhuma outra? ‘Poizé’. Aí, vão dizer que tudo depende, que é necessário entrar nos méritos de qual foi o nível de envolvimento do acontecimento anterior. Mas e se você não sabe? A dica sempre é: então, evite essa vontade. Mulher, mesmo que não seja do tipo direta, sabe muito bem como agir quando quer ter um homem. Ela pode ser sutil, mas ela sabe o que fazer, como agir. Ao saber do acontecimento anterior, citado nos parágrafos acima, ela pode baixar suas armas. Ela tem razão? Será? E sempre fica o pensamento de que “poderia dar certo se fosse comigo” ou aquele “mas eu também só queria degustar por um dia”. Ai, malditas relações sociais. Há duas possibilidades: 1) Pode não dar problema nenhum. 2) Pode dar problema, birra e até um ‘fura-olho’ de apelido. É, a vida é mesmo muito confusa. Vale arriscar? Você vai deitar, colocar a cabeça no travesseiro e se questionar, questionar. Até que você desiste e acaba com um ‘há muito mais homens no mundo ainda’. Que droga de pensamento! Afinal, não eram esses outros homens que você queria algumas horas antes, quando evitava desejar aquela figurinha linda. Dizem que a dica para ser uma pessoa justa é: coloque-se no lugar do próximo. Certo. Aí, você se coloca e pensa: “Se fosse o fulano, não teria problema. Se fosse o ciclano, teria problema. Se fosse o beltrano, não teria problema. Se fosse o herculano, teria problema”. Alguma conclusão? Não? Nem eu.
Escrito por Mayara Alves às 12h59
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“Saber amar é saber deixar alguém te amar”
Ter, possuir, ser dono, obter, conter... Posse! O ser humano tem em si um desejo incrível de tomar conta, de ter o poder. E quem é que não quer tê-lo, não? Mas esse tal do ‘ter’ vai muito mais além do que ter um objeto, um material, uma peça. “O buraco é mais embaixo”, como dizem por aí. O foco é ter alguém – ai, que termo forte. As pessoas têm vivido nessa ‘pegada louca’ de “Eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também”, como na música Já sei namorar, dos Tribalistas (composição: Marisa Monte, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes). A música pode ser um tanto breguinha, mas não tiro seus méritos em relação ao seu conteúdo vazio, que nada mais é do que uma representação clara da realidade. Queremos ter alguém, mas não queremos ser de ninguém. Queremos ser do mundo. Queremos ser de nós mesmos e sem mais. Queremos a nossa liberdade, mesmo que nela esteja inclusa a liberdade do outro. Queremos que ninguém tenha a nossa liberdade. Queremos sair e viver. Queremos levar alguém para sair e viver conosco. Queremos que ninguém nos leve para sair e viver. Queremos mudar o mundo. Queremos que ninguém nos mude. Temos ciúmes. Queremos ser únicos. Queremos sair, mas não queremos que o outro saia. Queremos crescer, mas, mesmo que intimamente, não queremos que ninguém cresça. Queremos ser únicos para as pessoas, mas não as consideramos únicas. Queremos ter alguém e esquecemos que, no caso, teríamos que ser de alguém também. É normal, é comum, mas não é certo. O problema está no conceito. Ninguém é de ninguém, todo mundo é dono de si mesmo e só. Pronto, acabou. Não temos que querer ter alguém. Temos que querer que alguém nos acompanhe, que esteja junto. Que viva conosco, não para nós. Temos que viver e deixar viver. Live and let live! Chega de ter, apenas seja.
Escrito por Mayara Alves às 13h14
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Mercadão de Almas
Momento "li e não quero ler sozinha".
"Porque os anjos têm asas como as aves. Porque os homens têm pêlos como os bichos. E todos nós temos alma como Deus!" (São Francisco de Assis) "Há homens morrendo em todos os cantos do planeta. Mortes horrendas, desnecessárias. E há homens que, enquanto não morrem, assistem ao espetáculo da violência, faces da morte distribuídas por canais de TV, pedaços de corpos disputados por jornais e revistas. É este o programa da família. Crianças acostumadas, desde a mais tenra idade, ao sadismo de seu semelhante. Será esse o motivo? Eu procuro um motivo que justifique a frieza do homem diante do sofrimento do outro, seja lá que outro for. Foi assim com Sócrates, Cristo, Zumbi, Gandhi, Martin Luter King, Tiradentes, Lennon, garotos arremessados de um trem em movimento e tantos outros que, a seu modo, exerciam ou lutavam pela liberdade e pela paz, mas foram premiados com a cruz, com a faca, com a bala, com a bomba, com a tortura. Quais são mesmo os motivos? Ainda não sei. Ser humano sem humanidade? É um triste paradoxo. Como se um peixe que não soubesse nadar, como uma águia que se recusasse a voar. Estou perplexa. Aqui, no Mercado da Cantareira, em São Paulo, acompanhada de meu amigo Christopher, essas interrogações me invadem. Esses porquês. Como é que esses homens, sem humanidade, vão-se comover com animais amontoados em gaiolas, implorando por socorro, por misericórdia? Há, por exemplo, um box especializado em venda de animais para rituais religiosos. Há pequenos bodes, cabritos e galos pretos à espera do sacrifício. Os primeiros nem lutam mais pela vida. Chegaram a lutar antes de entrar num caminhão, a milhares de quilômetros daqui. Chegaram a lutar dentro do caminhão - com berros, com chifradas - por ar, por água, por comida. Agora, presos numa cela de azulejos brancos, eles se ferem um aos outros. Estão cegos, paralisados pelo medo e pela dor. Acaricio a cabeça de um deles, que não reage. Parece um animal empalhado. Só sei que está vivo porque o corpo esquelético, respira. Uma pessoa se aproxima. Olha os galos pretos, que gritam inconformados. Eles são valentes. Ela escolhe um. O dono do box - um homem branco, gordo, com uma expressão tão fria quanto a de um manequim de loja (terá filhos? Terá um amor?) - o dono do box abre a gaiola e agarra o animal pelas pernas. O galo bem que tenta reagir: grita, bate as asas, imponente. O dono, então, levanta-o e, com precisão, arremessa sua cabeça contra a parede. Não, o bicho não morre. O homem é "bom" no que faz. Deixa-o em estado de choque, entre a vida e a morte. Porque seu novo dono o quer vivo: o ritual exige seu sangue quente. O funcionário do box, mais falante, diz que tem dó dos bichos. Mas o que se há de fazer? "Nós cuidamos deles, passamos remédio nos olhos feridos. Mas eles se ferem novamente", explica o rapaz, o erro dos bichos. Chega? Não. Há também os coelhos. Um deles, cujo valor foi estabelecido em trinta Reais, lambeu meus dedos quando o peguei no colo. Nunca tinha visto isso. Queria levá-lo comigo; entretanto, Christopher me disse que seria um incentivo à continuidade daquele comércio. Não levei. Hoje, sinceramente, arrependo-me. Eu não queria ver mais nada. Mas ninguém entra num local desses impunemente. É preciso ir ao Mercado Municipal, próximo ao da Cantareira, onde também há animais. Estes, por sua vez, estão todos mortos. São exibidas cabeças de porcos dentro de um freezer transparente com o nome de "Porco Feliz". E um anúncio grande num outro box, com os dizeres: "temos filhotes de javali". Sim, tem gente que faz sua ceia de Natal com filhote de javali. Estou cansada. Não agüento mais ver essas fotos nem escrever sobre o que vi. Eu só espero que as pessoas - nas festas de Natal e Ano Novo - valorizem mais o amor do que cadáveres sobre a mesa, façam mais amor do que rituais sangrentos. Porque a vida nos dá o que damos a ela. Só teremos um ano melhor se plantarmos, uma a uma, as sementes dos frutos que queremos colher. Eu desejo a todos vocês que saibam semear com sabedoria." Adriana Bernardino VEGANPRIDE.COM
Escrito por Mayara Alves às 13h04
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Comentário... sobre as borboletas
Esses dias, comentei no blog da Luka Dias, no texto 'Um café com borboletas, por favor'. Incrível. Achei, inclusive, que deveria colocar o comentário aqui. E fica a dica do blog dela. Vale à pena. Comentário: "Esperar por alguém é a pior coisa que tem. E tanta gente espera por nós, não? É sempre assim. Queremos A, apenas o A, mas temos o B, o C e o D sem querer. Mudamos, sempre mudamos. Um dia, queremos. No outro, não mais. Assim como a outra pessoa. Tudo gira. São raras as vezes que ambos se encontram. Se a gente, no tempo em que não queríamos, fomos responsáveis pela perda, podemos nos arrepender muito depois. Pois, em seguida, podemos querer loucamente e aquela pessoa não estar mais ali. Afinal, ela também mudou. Citação: Lua adversa Cecília Meireles “Tenho fases, como a lua Fases de andar escondida, fases de vir para a rua… Perdição da minha vida! Perdição da vida minha! Tenho fases de ser tua, tenho outras de ser sozinha Fases que vão e que vêm, no secreto calendário que um astrólogo arbitrário inventou para meu uso. E roda a melancolia seu interminável fuso! Não me encontro com ninguém (tenho fases, como a lua…) No dia de alguém ser meu não é dia de eu ser sua… E, quando chega esse dia, o outro desapareceu…” E um café com borboletas, mesmo que deixe marcas dolorosas em nós, é sempre bem-vindo. Não adianta. Nada paga um momento, aquele momento. Mesmo que seja de pura ilusão. Ainda acreditamos, no fundo, que não é ilusão."
Escrito por Mayara Alves às 13h58
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Ausência
Era tarde e ela foi se deitar. Não desligou a luz. Por quê? Não sabe. Estendeu seu corpo em sua cama, com a barriga para cima. As pernas estavam cruzadas, assim como os braços, que se encontravam como um apoio embaixo de sua cabeça. Um cobertor a escondia do mundo até a altura do umbigo. Seu corpo não havia encontrado uma posição paralela à cama, e manteve-se assim, na diagonal. Seus olhos fitavam a lâmpada, bem no centro daquele teto pálido. Não tinha nada ali. Não tinha nada em lugar nenhum. Não tinha nada nela. Ela estava vazia. Vazia. Seus olhos não viam nada, porque não partiam de nada. Era 2h da manhã. Ela não dormia. E mais uma vez, não sabia o porquê. Afinal, ela não sabia nada. Sentia a ausência de sentimentos e de alguém. Sim, ausência de alguém. Talvez, dela mesma. Faltava ela ali. Faltava o alguém que ela era. Um corpo tépido. Parado. Nulo. Um corpo que respirava sem querer, sem ao menos sentir a necessidade de tal função vital. Ela permaneceu ali por algum tempo. Não sabe-se quanto. Não havia tempo ali. Mas ficou até desligar aquela máquina oca, que era seu corpo. Não dormiu, apenas fechou seu globo ocular e permaneceu sem nenhuma reação. Ela não fazia diferença. Não se importava. Não vivia. Desligou-se. Junto, o nada que ela era se apagou.
Escrito por Mayara Alves às 15h43
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Fome de...
Tem de morango, baunilha, limão, maracujá, chocolate, coco, uva, pêssego, pitanga, carambola, tutti-frutti... Ai, quantos! Não ficou claro sobre o que estou falando? Hidratantes corporais, claro! Sobre o que mais seria? O meu, no momento, é de frutas vermelhas. Outro dia, fui viajar com uns amigos. Hora do banho! Sempre. Passei meu creme e todo o ambiente ficou perfumado. Deixei o cômodo e um amigo entrou em seguida. Foi aí que ele disse: “Você passou bala no corpo?” e começou a brincar de comer o ar. Uma cena única, a propósito, mas... Qual mesmo é o intuito desses produtos? Quem começou com essa história de fazer hidratantes com fragrâncias de doces? Corpo... Comida... Comer... Cheiro... Instinto... Corpo. Tudo, na verdade, não passa de uma combinação perigosa. E aí entra toda a questão de atribuir o verbo ‘comer’ a sexo. Deixar uma mulher com fragrância de algo comestível, nada mais é que uma tentativa de estimular o desejo e de “matar a fome” do homem – ou da mulher -, do ser humano. Coisa maluca pensar: "vou passar esse creme de pêssego para que queiram me comer". Uou. Muito forte. Mas não há como negar que o pensamento das indústrias de cosméticos faz um certo sentido. A história não para somente nos hidratantes corporais. Vai mais além. As notas aromáticas dos perfumes estão cada vez mais gourmets. As mudanças são imperceptíveis no dia-a-dia. Afinal, é claro que isso não faz com que você atraia pessoas com desejos sexuais por você de maneira enlouquecida, mas será que, lá no fundinho do nosso psicológico, não existe algo que realmente estimule mais os sentidos de quem sente a fragrância? Eu acho que sim. Foi-se o tempo em que perfumes eram feitos somente com flores. Comer, comer e comer. Tudo gira em torno disso. Claro que ninguém vai parar de optar por cheirinhos de doce. Eles são realmente gostosos! Mas, às vezes, me surpreendo com o real significado das coisas. Que ingenuidade achar que o creme de morango com chantilly, além do perfume doce, não tem nenhuma conotação com uma fantasia sexual. "A comida está tão relacionada com o sexo que, hoje em dia, os prostíbulos aceitam pagamentos com cartões de vale refeição", disse um amigo meu outro dia, numa mesa de bar. O mundo é incrível.
Escrito por Mayara Alves às 11h31
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Senha 1234
Eu, como sempre, trago algo presente em conversas diversas e perdidas pela minha vida. Desta vez, era com um amigo. Sim, um amigo. Ele queria ver umas fotos na internet nesses sites de relacionamentos – ok, era o Orkut –, mas não tinha acesso. Eu, pelo contrário, tinha. E agora, o que fazer? Sim, sou uma simpatia – um doce de candura, como diria uma amiga minha – e ofereci a minha senha para ele. E foi aí que tudo começou... Calma, não esperem um caso, uma loucura ou algum acontecimento grandioso, foi apenas o momento da reflexão. Minha senha era superlindinha! Adorava! Na verdade, sempre me dediquei às minhas senhas. Mas, como a grande maioria que me conhece sabe, sou um poço de segredos com a minha vida pessoal. Alguém ter a minha senha? Valha-me Deus! Não, obrigada. Sou absolutamente canceriana neste sentido. Obviamente iria trocar a senha após o acesso do amiguinho. E, claro, já havia checado se não existia nada ali que pudesse expor meu particular. Até aí, sem problemas. Porém, o problema chegou. Qual seria a minha nova senha? Pode parecer ridículo, mas é muito complicado. Temos uma quantidade absurda de senhas para decorar, para viver. Orkut, Twitter, e-mail no Hotmail, e-mail no Gmail, e-mail no Uol, Facebook, senha da faculdade, do trabalho, senha do cartão de crédito Visa, do cartão de crédito Mastercard, do cartão de débito, do vale refeição, do vale alimentação,... Isso sem contar nossos dados, como RG, CPF, chapa do crachá do emprego, conta bancária, agência, cep, registro na faculdade... Falando sinceramente, é muita informação. Sim, somos capazes de saber tudo isso e muito mais. Ok, exagerei no ‘muito mais’, mas serviu para dar sensação de poder. Estamos acostumados a um determinado ritmo, a uma determinada série de combinações. Mas, e quando uma delas muda? Porque para nos tirar do eixo, basta que uma mude. Ai, que vida! É como se tudo se embaralhasse novamente. E pior: que senha inventar? Era esse o meu dilema. Há senhas absolutamente banais, como data de aniversário, telefone celular. Convenhamos, não dá. Pelo menos, para mim, que sou uma criatura escondida em meio a altos muros de concreto, não quero dar espaço para alguém acertar as minhas senhas. Que dificuldade! Pensei, pensei e pensei. Pronto, encontrei uma. Sabia que iria me confundir ainda nos primeiros dias, mas, como já disse neste blog antes, o ser humano sempre se adapta. A minha senha era demais! Muito mesmo. Até comentei com o meu amigo isso. Era tão genial que queria contar para ele, para todo mundo. Queria publicá-la aqui, até. Entretanto, claro que não. E, hoje em dia, é essa coisa louca. Temos que ser autores incríveis, poéticos, únicos e criativos simplesmente para criação de senhas. O que é um absurdo, um desperdício tamanho. Afinal, é muita arte para uma coisa que ninguém vai ficar sabendo. E tudo isso me faz lembrar daquela época de criança, na qual grupinhos se fechavam em cômodos e só autorizavam a entrada do outro se soubesse a senha. É... Mais um reflexo da infância na vida. Só entra no mundo quem sabe o tal do ‘password’, também muito presente nos videogames. Crianças!
Escrito por Mayara Alves às 19h19
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"A humanidade é o plural do lugar comum"
"A humanidade é o plural do lugar comum Pode ser qualquer uma. Musa do axé, porteira de boate, atriz de realityshow, comentarista econômica. Pode ser até uma mulher que o pai-de-santo jurou que era a reencarnação da Simone de Bevouir. Do Buda. Pode ser qualquer uma. É só a anestesia do parto passar para ela se encher de sinceridade e falar a frase mais clichê dos cromossomos XX. "Eu nasci para ser mãe". Eu eu? EU NASCI PARA BAILAR! Danço bolero, danço samba, danço cha cha cha... Por que nasci, nasci para bailar.... Agora todo mundo gente! Por que nasci, nasci para bailar!" Por Jô Hallack, do 02 Neurônio.
Escrito por Mayara Alves às 00h50
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“Fazer amor é fazer o bem”
Essa frase surgiu em uma viagem, dentro de um carro. Uma reunião de amigos com filosofias incríveis. A idealizadora desta, no caso, foi uma amiga. Para quem está pensando que o significado é ‘transar é fazer o bem’ está muito enganado. Leia novamente a frase, por favor. Reflita sobre o seu significado. Muita gente diz que fazer amor é sexo. Sério mesmo? Em que momento isso é verdade? Há sexo com amor, sexo sem amor, e mais uma porção incrível de sentimentos e adjetivos que podem ser dados ao sexo. Mas, convenhamos, o termo ‘fazer amor’ não se adéqua. Fazer amor seria produzir amor. A melhor forma de produzir amor é fazer o bem. Há quem se apaixone após uma transa, mas não significa que o sexo tenha trazido esse sentimento. O clima, sim. O sexo, em si, vai ser sempre sexo. Não estou querendo vulgarizar e dizer que sexo é uma coisa apenas física, sem sentimento, sem envolvimento, vazia. Por favor, não me entendam mal. Mas, tem que ficar claro que sexo não é o mesmo que amor. Eles apenas, em alguns casos, se complementam. Tudo é uma questão de opinião e, por que não, costume. Para muitos, ‘fazer amor’ é o termo romântico da coisa. Para mim, é o termo cafona. Romântico é ter o amor presente e pronto. Quando alguém diz que fez amor, acho muito ‘pagode’ ou ‘sertanejo brega’, sabe? Letras de músicas que não querem dizer a palavra sexo. As pessoas acham que ‘fazer amor’ é mais bonito que dizer ‘transar’. Só esquecem que não é uma questão de termo, é uma questão de significado.
Escrito por Mayara Alves às 12h57
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No passo das luzes
Todo mundo tem um lugar favorito na sua cidade. Um lugar para caminhar e apenas apreciar a paisagem. Não somente por sua beleza – natural ou não –, mas principalmente por sua energia. O lugar dela, mesmo que pareça banal para muitos, é a Avenida Paulista. Ai, e como ela gosta. Gosta das pessoas e daquele mix todo especial que ela tem. Gosta dos prédios, das luzes. Gosta até do céu, que parece ser diferente dos que são vistos em outros cantos da cidade. E é assim, com essa paixão, que ela sempre vai ao encontro de sua amada. Sempre, não. Há algum tempo, sua frequência diminuiu. Mas ok, sua paixão é a mesma. Na última vez que foi até lá, ela foi sozinha. Sim. Quem disse que precisa de companhia para ir? Pelo contrário. Muitas vezes, a ausência faz bem para si. Ela caminhou por um longo tempo. Decidiu, então, sentar-se no canteiro central da avenida. E por que não? Não é uma coisa comum de se ver, mas ela não ligava. Atravessou a rua, e sentou-se com as pernas cruzadas. Apoiou suas costas na grade central. O vento batia de frente com o seu rosto, levando seus cabelos para trás levemente e deixando-a com a sensação de alma lavada. Ela estava próxima à faixa de pedestres. Usava uma blusinha branca, calça jeans e chinelos. Sua bolsa preta estava aconchegada no seu colo. Ali, ela permaneceu por um longo tempo. Ora fechava os olhos, ora os abria. Pessoas passavam e a observavam. Pensamentos alheios a achavam estranha e louca, mas com uma inquietante inveja de estar ali, como ela. Seus pensamentos viajavam o mais longe que conseguiam. Lembranças, passados, planos, mágoas, sorrisos, futuros, pessoas... Ela estava absolutamente desligada daquele universo e fechada no seu. Sua única distração eram as fivelas dos sapatos dos passantes. Elas refletiam como pequenos diamantes pendurados, fazendo-a se perder por entre aqueles brilhos e as fantasias que eles poderiam trazer. Poderiam ser estrelas... Poderiam ser sóis... Poderiam ser pessoas... Poderiam ser sorrisos... Poderiam ser magia! E aqueles pontinhos luminosos iam se misturando. Viravam borrões brancos em sua mente. Viravam estrelas cadentes. De repente, eles pareciam dançar. Sim, dançar. Dançavam sincronizadamente e num ritmo frenético. Logo, acalmavam-se. Em seguida, voltavam ao ritmo anterior. As luzes dos semáforos decidiram se misturar e realmente entrar na dança. O espetáculo crescia e aquelas luzes preenchiam o cenário. Agora, eram brancas, vermelhas, verdes e amarelas. Saltitantes e vibrantes. Elas se misturavam e, às vezes, se tornavam uma só. Apesar do pouco movimento de carros, devido ao adiantar da hora, os faróis começaram a surgir na coreografia como integrantes extras. Vinham aos poucos, chegando de mansinho em meio àquela visão. De um lado, brancos. Do outro, vermelhos. Representavam o bem e o mal, tendo o centro marcado por entre a magia das coisas. Ela, ali sentada, se envolvia por entre as vozes de quem passava e os roncos dos motores. Ambos se tornavam apenas pequenos ruídos e davam musicalidade ao show. Ela se perdia. Perdia-se por entre a sua vida. Perdia-se por entre os seus sentimentos. Perdia-se por entre os seus desejos. Ela se perdia. As horas haviam passado sem que ela se desse conta. Um homem a trouxe de volta ao mundo e as luzes se apagaram de repente, do nada e bruscamente. Sentiu uma mão em seu ombro. Oi, está tudo bem? Um silêncio permaneceu por alguns segundos. Sim, acho que sim. Você quer alguma coisa, quer ajuda? Não, obrigada, só estou pensando. Ok, boa sorte. Ela voltou a si. Sentia-se leve e esclarecida. Ela não sabia bem o que havia passado em sua mente, mas ela sabia que algo tinha acontecido. Tinha, na lembrança, um show de explosões de sentimentos. Por mais confuso que tudo aquilo poderia parecer, ela se sentia mais forte e determinada, mesmo que não soubesse qual era a sua determinação. Não queria ligar para ninguém, como antes desejava. Ela queria apenas viver e sabia que era possível. Mesmo sem saber o que.
Escrito por Mayara Alves às 13h46
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Ter, querer e poder
Ter alguém é muito bom. Ter o costume de ter alguém é muito bom. Porém, ter o costume de ter alguém e não ter esse alguém é estranho. Ok, é ruim. Você cria hábitos. Espera um beijo, um abraço, um agrado. Você pode até não ter essa pessoa em constância, mas sabe que ela está ali sempre. Quando ela não está mais, você simplesmente não sabe o que fazer. É bom ter certezas. Claro que a emoção está nas incertezas, mas precisamos de alguns detalhes certos na nossa vida, senão perdemos nossas referências. Há momentos e momentos – uou, que frase. Nem sempre os quesitos fixos precisam ser os mesmos. Em cada fase, precisamos de alguns determinados. Às vezes, o que precisamos de certo na nossa vida é um casaco preto. Sim, aquele pretinho básico que sempre nos socorre nos dias cinzentos. Às vezes, o que precisamos é da constância de um pacotinho de bolacha na bolsa, para aquelas horas de fome sem horário. Às vezes, o que precisamos é de um bar para ir sempre, para apreciar aquela cervejinha básica se sentindo em casa. Às vezes, o que precisamos é apenas de uma pessoa do sexo oposto, que faça com que nós nos sintamos mais nós mesmos. Não quero tirar os méritos de nenhum. Não mesmo. Fases estão aí para serem diferentes. E garanto para você que, em algumas, a bolachinha ou o bar serão muito mais importantes que o ser humano do sexo oposto. Ou que a bolachinha valerá bem mais que um casaco preto – fome, sim. Frio para que? –, ou até que aquela pessoa valerá mais que a bolachinha e o casado, juntos com mais um monte de coisas – sim, o famoso esquecimento da vaidade e de tudo por um sentimento. É importante termos pontos fixos. Na verdade, é muito bom. Não vou tirar os méritos das mudanças, mas tudo que muda, muda um ponto fixo da nossa vida. É como olhar uma pessoa de um jeito e, de repente, ter que mudar. Exatamente: TER que mudar. Como já disse antes por aqui, nem toda mudança acontece por vontade nossa, por isso, temos que nos adaptar. É difícil, claro. Lembra daquela pessoa do primeiro parágrafo? Da qual nós esperamos um beijo, um abraço, um agrado. Pois é, nem sempre isso continua. Ou melhor, nem sempre isso pode continuar. E a gente tem que mudar, mesmo que aquele hábito seja tão gostoso. Tão gostoso.
Escrito por Mayara Alves às 00h08
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Mentindo para o espelho
É tudo muito complicado. Às vezes, a gente gosta de alguém. Gosta de verdade e não percebe. Não percebe porque gostar de verdade é se mostrar fraco, sensível e suscetível ao próximo. E isso, ninguém quer. Ou seja, nós apenas escondemos essa realidade clara de nós mesmos. Fingimos não ser tão intensos, não sentir tudo que sentimos. Essa falsidade com nós mesmos se prolonga e acaba alcançando a pessoa responsável por esse sentimento. Não nos mostramos inteiramente e essa pessoa acaba não sabendo exatamente como agir conosco. Não que isso seja uma incógnita para ela, um mistério ou uma questão muito importante, já que ela não imagina que não estamos sendo totalmente sinceros com nós mesmos, mas ela acaba agindo a partir de determinados pensamentos e convicções que não são reais. Assumir um gostar louco, uma paixão devassadora, é mostrar-se vulnerável. Quando não se sabe se essa loucura é recíproca, apenas abstraímos e fingimos que ela não existe para manter tudo dentro dos conformes. Ilusoriamente, claro. A vida segue e acontecimentos vão se formando a partir dessa barreira de mentiras. Se positiva ou negativamente, não interessa. O que vale lembrar é que qualquer resultado partiu de uma indiferença com a verdade. As pessoas esquecem de si mesmas e passam a achar que só existem, só são felizes, com a existência do próximo. Isso é errado. Todos nós podemos ser felizes por nós mesmos. Ninguém nos faz feliz, apenas somos felizes com alguém. Dar essa tamanha responsabilidade para alguém que não seja você mesmo é absurdo. Construir a sua vida e tomar conta dos seus sentimentos com base apenas na vontade do outro é ilógico. Fui clara? Estar junto e se autoenganar é extremamente errado. As coisas têm que ser transparentes para nós mesmos para depois, por favor, serem transparentes para o companheiro. Se o excesso ou a falta daquilo que alimenta um relacionamento existem, é preciso mostrar isso. Caso contrário, tudo acontecerá a partir de noções distorcidas da realidade vivida. Fingir é errado. Joguinhos são errados. Mas sei que isso nunca vai mudar e que as pessoas continuarão se privando de suas verdades apenas para tentar, mesmo que à base de mentiras imperceptíveis para ela, buscar a sua felicidade e, principalmente, a do próximo. É normal, é real. Também não nego. Sou humana e também faço essas bobagens – pronto, falei.
Escrito por Mayara Alves às 04h00
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Uma noite diferente
E talvez se ela tivesse acordado diferente naquele dia. Se ela não tivesse tomado café da manhã, ou se tivesse tomado outro café da manhã, ou se tivesse se contentado apenas com o café ou apenas com a manhã. E quem sabe se ela tivesse outros pensamentos. E se ela não tivesse saído logo cedo para tarefas que não eram daquele dia. Pode ser que se ela não tivesse entrado naquele galpão. Quem sabe se aquele almoço atrasado, aquele encontro paterno, ou aquele susto não tivessem acontecido. Quem sabe se ela não tivesse passado a sua tarde aflita. Quem sabe se não tivesse tanta pressão, emoção, novidade, euforia... medo naquele dia. Talvez se ela não soubesse que aquilo seria a despedida mais dolorosa para ela. Pode ser que se a maquiagem dela fosse outra, se a roupa fosse outra e se seus pés tivessem andando diferente. Talvez se fossem outros espectadores. Quem sabe se não tivessem colocado ela em um conjunto de situações novas ao mesmo tempo. Era tão importante para ela. E se ela tivesse sorrido diferente, pensado diferente, pisado diferente. Na verdade, se não fosse aquela casca de banana...
Escrito por Mayara Alves às 23h21
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O mundo dá voltas e...
... Às vezes, nos leva de volta para o mesmo lugar. Ruim, não? Não. Nem sempre isso é ruim. Tudo depende do que volta. E, naquele dia, voltar era simplesmente o ideal para aqueles dois. O mundo havia girado, os anos haviam passado e eles se encontravam no mesmo ponto, porém, diferentes. Tudo muda, mas certas essências, não. Tiveram uma história curta, uma vez. Entretanto, quanto menores somos, maiores são os que nos rodeiam. Ou melhor, os acontecimentos que nos rodeiam. Quando crianças, qualquer toquinho de madeira podia trazer um sorriso. Crescidos, as exigências aumentam. E com eles, não foi diferente. Naquela fase em que quase tudo que acontece, acontece pela primeira vez – primeira ida à balada, primeiro beijo, primeira cerveja, primeira viagem sem os pais –, tudo é lindo. Fase em que a experiência é pequena, mas a intensidade é grande. Tudo é novo, o amor é novo. Tempo de descobertas. E sim, eles se descobriram nesse tempo. Mas esse tempo ficou para trás e carregou cada um deles para um lado. Cada um se jogou nos braços de outros e outras. Cada um teve várias outras primeiras, segundas e terceiras vezes com outras pessoas. Eles cresceram e apareceram. Mas mesmo com vidas distintas, eles tentavam manter alguma ligação, algum laço entre eles. Um especial para o outro. Eles não queriam perder isso. Foram anos fisicamente distantes. Era como se ela morasse num continente e ele noutro. Comunicavam-se apenas por meios que não lhe permitiam sentir o calor do outro, mas que, ao menos, traziam algumas lembranças. Mas o tempo – aquele tempo que tanto é, que tanto faz e que tanto muda – não deixou por isso apenas. Como um retorno, como um barco que está quase chegando ao porto, como uma visão após uma longa viagem, eles se reencontraram. Assim, do nada. Eles se entreolharam sem fixar olhos nos olhos. Quanta coisa passando pela cabeça. Um abraço. Sim, aquele calor que tanto estava ausente por um longo tempo. Aquele calor sentido há tantos anos, mas que jamais havia sido esquecido. Quanto tempo. Que saudades. Eu não acredito. Nem eu. As palavras saiam como se a ausência não tivesse acontecido. Ou melhor, com a intensidade de uma saudade matada, mas com a segurança de duas pessoas que sempre estiveram presentes. Eles não eram mais os mesmos, mas o carinho era. Eles não eram mais os mesmos, mas os olhares eram. Por mais que eles estivessem diferentes, aquele momento era só deles, como naquele tempo que os anos deixaram para trás. Apesar das mãos e olhares já estarem entregues, seus lábios ainda se prendiam no sabor da adrenalina do antes. Mas não se detiveram apenas nisso. O sabor que eles queriam era o sabor inteiro dos momentos que já tinham passado juntos. E assim foi feito. Eis que o sabor apareceu num beijo. Suas mentes saíram dali e voaram rapidamente ao passado. Ali, ficaram por alguns segundos e, quando voltaram dessa viagem, perceberam o quanto eles haviam mudado e o quanto isso era uma coisa boa. Passaram por aquele dia com a sensação de que demoraria mais alguns anos para se reverem. Como se aquele dia fosse apenas uma ilusão. Ambos não desejavam isso, mas temiam pela vida repetir o mesmo filme. Bom, isso não aconteceu. Bom, muito bom...
Escrito por Mayara Alves às 00h10
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Escrito por Mayara Alves às 23h41
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Não, não era um simples bom-humor
Sorria num sorrir oculto. Ela nem via, não percebia, mas a sua alma gritava por um espaço para mostrar ao mundo o seu sorriso. E ela sorria... Sorria para todos e achava que ninguém estava percebendo o brilho daqueles traços em sua face, modificados por um sentimento. Seus olhos brilhavam, sua pele cintilava e o seu sorriso... Ah, o seu sorriso não tinha descrição. Ela havia acordado mais cedo. Era um dia comum, um dia de trabalho, mas algo diferente ia acontecer. E ela sabia. Banhou-se, perfumou-se e arrumou o cabelo. Olhos negros com contornos negros, bochechas ruborizadas e delicados lábios brilhantes. Lá estava ela, caminhando na rua como se fosse a única mulher no mundo. Ou pelo menos, a única mulher feliz. Ela andava contra o vento e seu cabelo parecia dançar com ele em sincronia. Todos a olhavam admirados. Sapato preto, calça jeans, blusa preta e bolsa preta. Não, ela não queria ousar. E precisava? Até de burca essa mulher se destacaria entre as demais, até de burca daria para sentir sua força e seu... sorriso. Bom dia para o motorista, bom dia para o cobrador. Cedeu seu lugar no ônibus para outra pessoa e, quando sentou-se, fez questão de carregar bolsas e mochilas dos demais passageiros que estavam em pé. E tudo isso com o mais belo sorriso. Não, não era um simples bom-humor. Cantava e queria cantar para todos, cantar sua alegria, contagiá-los. Trabalhou como nunca. Algo ainda a esperava. Em sua mesa – uma dentre as sete presentes numa mesma sala –, olhava seu computador e... sorria. Ela escrevia e não controlava mais os seus lábios. Todos a olhavam e queriam saber o que havia acontecido. Mas o que havia acontecido? Ah, ela não sabia. Ela apenas sorria. Sentada, abriu sua bolsa preta, pegou um creme e passou em suas mãos. Era o momento dela, não de seu trabalho. Entre voltas e mais voltas de encontros e massagens de seus dedos, ela olhava para... ela não olhava nada. Seus olhos se fixaram em algum lugar entre seu computador e a mesa, mas, na verdade, estavam no que ainda iria acontecer. Suas mãos se acariciavam enquanto ela suspirava sensações e pré-sensações que ainda estavam por vir. Ah, e sorria. Não, não era um simples bom-humor. O fim do expediente se aproximava e seu coração acelerava. Seu telefone tocou. Quem era? Taquicardia! Era... Sim, ela sorriu mais ainda. Soube de um atraso e o seu tão esperado momento do dia seria um pouco adiado. Não era um problema. O importante para ela era que ele acontecesse, não importava a hora. E ela se acalmou... sorrindo. Agora, já sem pressa, respirou. O relógio anunciava às 17h30: hora de pegar as suas coisas e deixar aquela mesa. Ela sabia que lhe restava algum tempo. Refrescou-se com uma bebida gelada e caminhou por entre aquelas ruas como uma turista, observando cada detalhe como se fosse pela primeira vez. Ela sorria e não se continha. Os minutos passavam e ela estava cada vez mais próxima de realmente abrir o sorriso tão esperado. Não, não era um simples bom-humor. Continuou caminhando e, após algumas ligações e confirmações de lugares, ele apareceu em seu ângulo de visão. Seu coração bateu mais rápido, um frio percorreu a sua barriga, suas mãos se inquietaram e seu sorriso se exaltou como nunca. O sol ainda aparecia, o dia estava lindo. Ele a olhou e eles andaram até pararem no mesmo ponto. Um beijo, um abraço, um calor. Nem acredito que você veio. Nem eu. Seguiram por aquela rua como dois personagens de um conto de fadas, apenas andando, conversando, admirando, se importando somente com o que estava ali com eles e... sorrindo. Dirigiram-se para um bar com um clima diferente. Ele era grande e bem aberto, o que dava uma linda visão do pôr-do-sol. Sentaram-se, comeram e beberam entre longas e deliciosas conversas. Quando decidiram ir embora, já estava tarde e as ruas estavam vazias. Foram para o ponto de ônibus mais próximo daquela avenida e ali ficaram. Era lindo ver aqueles dois abraçados, trocando palavras, beijos e sorrisos. Era um daqueles momentos que ela queria manter nitidamente fotografado em sua mente. Não, não era um simples bom-humor. Após um longo tempo de espera, que, de maneira nenhuma, foi motivo de reclamações para ambos, chegou o ônibus e absolutamente vazio. Sentaram-se em um dos últimos bancos. Riam, sorriam, riam, sorriam. Ficavam imaginando e planejando loucuras para fazerem juntos, incluindo hipóteses que realmente fugiam da normalidade. Mas, para aqueles dois, tudo era normal, tudo era lindo. E não seria diferente. Ele a levou até a casa dela e eles namoraram como dois adolescentes na rua. Não conseguiam conter os beijos e, ao mesmo tempo, tentavam disfarçar à presença dos passantes. Adorei. Eu também. A gente se fala. Com certeza. Beijo, beijo, beijo, boa noite. Ele sorriu. Ela sorriu. Afinal, não, não era um simples bom-humor.
Escrito por Mayara Alves às 12h29
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